Fernanda Machado revelou ter a versão grave da TPM — ginecologista explica os sintomas que muitas mulheres ignoram por anos

Em 2025, a atriz Fernanda Machado, conhecida por novelas da TV Globo, surpreendeu os seguidores ao revelar publicamente seu diagnóstico de Transtorno Disfórico Pré-Menstrual — o TDPM. Mais do que uma confissão pessoal, o relato dela abriu uma discussão que precisava acontecer.

“TDPM é coisa séria. Desde que descobri que sofro desse transtorno, resolvi estudar a fundo e trazer luz para esse distúrbio tão complexo e devastador”, disse a atriz, que chegou a escrever um livro sobre o tema. “Infelizmente as mulheres sempre sofreram com esse transtorno, mas antes de existir um diagnóstico elas eram consideradas loucas, histéricas.”

O caso de Fernanda não é exceção. Estima-se que milhões de mulheres brasileiras convivam com sintomas graves de TPM ou TDPM sem nunca terem recebido um diagnóstico — achando que é “normal”, que é “frescura”, ou que simplesmente precisam aguentar.

Não precisam.

TPM e TDPM: qual a diferença?

A TPM — tensão pré-menstrual — afeta entre 75% e 80% das mulheres em idade reprodutiva, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). É o conjunto de sintomas físicos e emocionais que aparecem nos dias antes da menstruação e somem com o início do fluxo.

O TDPM é diferente em grau, não em tipo. Os mesmos sintomas — mas com uma intensidade que compromete relacionamentos, trabalho e qualidade de vida de forma significativa. Afeta entre 3% e 8% das mulheres e está reconhecido no DSM-5, o manual de diagnósticos psiquiátricos da Associação Americana de Psiquiatria, como transtorno com tratamento específico.

A linha entre TPM e TDPM não é sobre “ser sensível demais”. É sobre impacto real na vida.

Por que a TPM acontece — e por que piora com a idade

Durante a fase lútea do ciclo menstrual — os 7 a 14 dias antes da menstruação — os níveis de estrogênio e progesterona oscilam de forma acentuada. Essas oscilações afetam diretamente a serotonina, o neurotransmissor responsável pelo equilíbrio do humor.

Quando a serotonina cai, surgem irritabilidade, tristeza, ansiedade e sensibilidade emocional aumentada. Quando a menstruação começa e os hormônios se estabilizam, os sintomas somem. Esse padrão cíclico é o que diferencia a TPM de outros transtornos de humor.

O que pouca gente sabe: a TPM tende a piorar a partir dos 30 anos. À medida que o corpo se aproxima da perimenopausa, as oscilações hormonais ficam mais imprevisíveis e intensas. O que era desconforto tolerável aos 20 pode se tornar incapacitante aos 35 ou 40.

“Muitas mulheres chegam ao consultório achando que estão ficando ‘sem paciência’ ou ‘mais emotivas’ com a idade. Na verdade, a perimenopausa está amplificando a sensibilidade hormonal que sempre existiu”, explica a ginecologista Dra. Carla Mendes, especialista em saúde hormonal feminina.

Os sintomas que as mulheres mais ignoram

Os físicos que todo mundo conhece

Inchaço, sensibilidade nos seios, dor de cabeça, acne, cólicas antes da menstruação. Comuns, reconhecíveis, mas frequentemente minimizados.

Os emocionais que muitas não percebem como sintoma

Hipersensibilidade a críticas: durante a fase pré-menstrual, o cérebro processa rejeição social de forma mais intensa. Um comentário neutro pode soar como ataque. Isso não é exagero — é neurologia.

Compulsão por doces e carboidratos: o cérebro tenta compensar a queda de serotonina buscando alimentos que a elevam rapidamente. Não é fraqueza de vontade.

Choro sem motivo aparente: a instabilidade de serotonina torna o sistema emocional mais reativo. Não é drama — é química.

Sensação de não ser “você mesma”: muitas mulheres com TDPM descrevem um período do mês em que parecem outra pessoa — mais agressiva, mais triste, mais impulsiva. Esse sinal, em especial, merece atenção médica.

Dificuldade de concentração e memória: as oscilações hormonais afetam o córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável pelo foco e pela tomada de decisão.

Quando os sintomas indicam TDPM

Segundo os critérios do DSM-5, o diagnóstico de TDPM exige pelo menos 5 sintomas que apareçam consistentemente na fase pré-menstrual e desapareçam após o início da menstruação — e que causem prejuízo significativo na vida da pessoa.

Sinais de alerta que indicam avaliação urgente:

  • Raiva ou irritabilidade intensa e desproporcional
  • Tristeza profunda ou sentimentos de desesperança
  • Pensamentos de se machucar
  • Conflitos sérios nos relacionamentos todo mês no mesmo período
  • Incapacidade de trabalhar ou funcionar normalmente antes da menstruação

A Câmara dos Deputados aprovou em 2025 um projeto de lei que prevê licença menstrual de até dois dias por mês para mulheres com sintomas graves — o que dá ideia da seriedade com que o tema passou a ser tratado institucionalmente no Brasil.

O que realmente ajuda

Cálcio: uma das intervenções mais subestimadas. Estudos mostram que mulheres com ingestão adequada de cálcio (1.200mg/dia) têm sintomas significativamente menores. Fontes: leite, iogurte, couve, brócolis, sardinha.

Reduzir sal e açúcar na segunda metade do ciclo: o sal piora a retenção de líquidos; o açúcar amplifica as oscilações de humor ao criar picos e quedas de glicemia.

Exercício regular: aumenta serotonina e endorfinas — os dois sistemas mais afetados pela TPM. Não precisa ser intenso. Caminhada de 30 minutos já produz efeito mensurável no humor.

Registrar os sintomas: anotar como você se sente a cada dia do ciclo por pelo menos dois meses é o primeiro passo para identificar padrões e facilitar o diagnóstico médico. Existem aplicativos gratuitos de rastreamento de ciclo que têm essa função.

Tratamento médico para casos moderados a graves: o ginecologista pode indicar anticoncepcional hormonal (para estabilizar as oscilações), antidepressivos ISRS (com eficácia comprovada no TDPM, mesmo usados apenas na fase lútea) ou suplementação orientada de magnésio e vitamina B6.

Conclusão

O caso de Fernanda Machado mostrou que falar sobre TPM e TDPM publicamente ainda causa surpresa — o que revela o quanto o tema é subestimado. Mas ele também mostrou o quanto as mulheres se reconhecem nessa história quando alguém tem coragem de contá-la.

Se você se identificou com algum dos sintomas descritos aqui — especialmente os emocionais — marque uma consulta com seu ginecologista. Não para confirmar que é “coisa da sua cabeça”, mas para entender o que está acontecendo no seu corpo e ter acesso ao tratamento que pode mudar sua qualidade de vida.

Como disse a própria Fernanda: você não precisa aguentar.

Fontes: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), DSM-5, CNN Brasil, Câmara dos Deputados, American Family Physician. Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou ginecológica.

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